Supervisão, o quê e para quê

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Razões que justificam a supervisão na vida profissional dos psicólogos
É hoje inquestionável que a formação ao longo da vida é uma resposta necessária aos permanentes desafios da inovação e da mudança e, simultaneamente, condição de promoção do desenvolvimento pessoal
A transição universidade-trabalho é, na maioria dos casos, um período crítico na vida dos recém-licenciados porque certas implicações – a nova condição de profissional, a falta de apoio no contexto de trabalho, a necessidade de o indivíduo construir uma identidade própria, podem produzir sentimentos de impotência, de insegurança, de apatia e de desorganização.
Todos nós psicólogos sabemos que os primeiros anos de prática são habitualmente vividos com dúvidas e questionamentos, pela complexidade do ser humano e pela diversidade de questões que se poem no espectro do diagnóstico, da avaliação, do acompanhamento psicológico e das terapias. O psicólogo leva vários anos antes de atingir um mínimo de segurança e à-vontade profissional e, em muitas situações, mesmo com anos de prática, as dúvidas e a insegurança perante determinadas situações continuam a existir.
Importa, assim, que nos preocupemos em compreender como os psicólogos se vão “tornando psicólogos” ao longo da sua carreira, e entender o papel da supervisão num registo de formação onde os profissionais encontrarão o conhecimento e as estratégias mais adequadas para dar resposta às múltiplas dificuldades que a condição e as características dos seus clientes determinam. Há que ter presente os diferentes contextos de intervenção, e o carácter relacional vivenciado e construído nesses diferentes contextos onde intervém, seja o individuo isolado, seja um grupo de indivíduos onde se destaca, a escola, a família e a comunidade, entre outros.
Trata-se de um processo exigente que impõe uma reflexão constante sobre a prática e a complexidade que a intervenção determina.
O psicólogo está constantemente posto à prova, quer se trate de corresponder à sua dimensão ética, quer de responder adequadamente aos pedidos e necessidades dos seus clientes.
A especificidade das situações de escuta, do próprio exercício, do confronto com outros campos profissionais que se interpenetram são tanto uma aposta, como um risco.
Uma outra questão não menos importante refere-se à condição de solidão em que o psicólogo age na maior parte das intervenções e situações profissionais.
O isolamento, relacionado com a natureza de sua profissão é frequentemente evocado pelos psicólogos. O seu trabalho baseia-se principalmente no encontro entre duas pessoas, o psicólogo e o cliente, dentro de uma sala fechada para o exterior.
Sabemos que nos podemos sentir sós sem, sem que isso nos faça sentir isolados. A solidão pode nascer, não de uma ausência à nossa volta, mas de uma ausência em nós próprios, tal como nos sentimos quando não temos instrumentos adequados ou um modelo de referência a que nos possamos reportar.
Um importante factor de solidão está associado à capacidade limitada no exercício da função terapêutica e à gestão da pressão psicológica.
O Conceito
A supervisão traduz-se num processamento de dificuldades e problemas que surgem na prática, mais concretamente na relação psicólogo/cliente.
Apesar da extensa literatura que hoje se encontra, não há nem uma abordagem única, nem uma técnica concreta, e, nem mesmo uma definição uniforme de supervisão. Em vez disso, a abordagem é determinada pela orientação terapêutica dos supervisores, pelas suas preferências e experiências. De acordo com esta diversidade, a supervisão nem sempre tem os mesmos objectivos nem se ancora numa só teoria.
Se a orientação for psico-dinâmica o alvo é a detecção de conflitos e a natureza da relação estabelecida entre o supervisor e o supervisando.
Na supervisão de orientação humanística o foco é dirigido para a concepção da relação entre o supervisor e os supervisandos. Analisa-se a transferência e trabalha-se no sentido de promover a experiência própria e o crescimento pessoal dos supervisandos.
A supervisão terapêutica de comportamento orientado dirige-se para as técnicas utilizadas pelos supervisandos e para o tratamento do problema dos pacientes-alvo, realizando mudanças de comportamento. Mais do que noutros tipos de Supervisão, o procedimento neste caso é orientado para os resultados.
A supervisão orientada para o desenvolvimento cognitivo tem como objectivo a integração do conhecimento teórico, o desenvolvimento das habilidades práticas e o crescimento pessoal dos profissionais.
Objectivos da supervisão
• Propor um espaço de acolhimento e de verbalização do vivido profissional;
• Favorecer a expressão de pontos de vista diferentes para a compreensão dos casos e para a intervenção;
• Escutar e acolher os impactos emocionais dos supervisandos;
• Tornar conscientes as dinâmicas e os sinais subjacentes das problemáticas presentes na relação de acompanhamento;
• Permitir a reflexão relativamente à forma como cada um trabalha;
• Propor novos instrumentos de análise e diferentes modelos de compreensão dos sintomas;
• Permitir a emergência de hipóteses;
• Favorecer a criatividade e a produção de novas opções;
• Ajudar na identificação de representações, crenças e ressonâncias pessoais;
• Contribuir para o desenvolvimento de competências relacionais no plano da comunicação, escuta e gestão das relações;
• Favorecer a integração de uma visão sistémica das situações;
• Mutualisar e desenvolver os saberes e os saberes-fazer do grupo;
• Desenvolver a cooperação e reforçar a coerência das práticas no seio do grupo.
O supervisor
A actividade do supervisor repousa sobre três vértices específicos: o teórico, o técnico e o experiencial, o que faz da supervisão um espaço integrador destes três factores tendo em vista o aperfeiçoamento da prática.
É possível sistematizar uma técnica de supervisão compreendendo a funções teórico-técnica e a função experiencial. Na função teórica explicam-se os problemas evocados no âmbito de uma teoria que clarifique a compreensão dos processos psicológicos e a particularidade desses processos vividos pelo cliente; a vertente técnica é salientada pela maneira de se trabalhar com o cliente, facilitando a conscientização da ligação entre a teoria, a técnica e a realidade psicológica. Por sua vez, a função experiencial da supervisão possibilita a compreensão do supervisando da sua relação com o seu cliente no plano das suas percepções e comunicações, dos seus sentimentos e atitudes no processo terapêutico ou de acompanhamento.

Comunicação apresentada no 2º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses/IX Congresso Iberamericano de psicologia – Setembro de 2014

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