O papel da entre-ajuda e cooperação na aprendizagem

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As competências para o exercício da entre-ajuda e da cooperação na resolução de tarefas e de problemas exigem que as crianças ou os jovens que estão nessa situação tenham uma compreensão conjunta do problema, das estratégias a desenvolver e dos objectivos a alcançar. Para que tal aconteça é necessário coordenar as suas ideias com as ideias dos outros, o que exige vontade para compreender outros pontos de vista e ser capaz de convencer o outro das suas próprias ideias acerca das mesmas questões. Este processo obriga a clarificar, elaborar, organizar, explicitar, explicar e defender a sua posição em função do outro e dos objectivos da situação, processos importantes na aprendizagem e no desenvolvimento de um pensamento científico.

Quando falamos ou pensamos em interajuda associamos, habitualmente, uma colaboração harmoniosa, que envolve responsabilidade partilhada, contribuições idênticas e participações similares, mas basta-nos observar dois amigos a trabalhar em conjunto, para vermos que esta concepção não corresponde à maior parte das situações reais de cooperação.

Na cooperação os participantes partilham algumas ideias, objectivos e regras de funcionamento, mas a cooperação nem sempre envolve o desempenho de papéis similares e a partilha imediata de significações e muito frequentemente, as situações exigem:

– Que se combata o ponto de vista do outro e se defenda o seu.

– Uma vontade determinada para compreender, justificar e comunicar a sua ideia.

– Um debate para definir noções e regras, e perseguir  um mesmo objectivo.

– Um desempenho de papéis complementares em que uns lideram e outros deixam ser dirigidos, apoiam ou observam.

– Uma maior ou menor responsabilidade pelo início, pelo desenrolar, pela selecção de estratégias e execução das tarefas.

Em suma, a cooperação nem sempre envolve uma participação similar e uma interacção harmoniosa, mas exige desacordo, conflito e contestação. As situações de cooperação exigem estratégias de raciocínio mais elaboradas e flexíveis e um maior recurso a estratégias metacognitivas do que o trabalho individual, mas obrigam também, a mobilizar competências de ordem relacional que possibilitem a cooperação, como por exemplo, o desenvolvimento de estratégias interactivas e comunicativas adequadas, competências relacionadas com o desempenho de habilidades sociais, tais como capacidade de liderança, processos de tomada de decisão e estratégias de resolução de conflitos.

Outra faceta das concepções sobre a cooperação assenta na associação espontânea de processos que decorrem de uma interacção social que envolve pares em presença   num determinado espaço e que agem de forma evidente durante um certo tempo. Ora a cooperação nem sempre pode ser assim caracterizada.

Pensemos por exemplo, na seguinte situação:

Maria e Rita têm de fazer um trabalho em conjunto sobre os benefícios da Internet. Mas a Maria não sabe nada de computadores e muito menos da Internet. A Rita lida bastante bem com computadores e é uma utilizadora frequente da Internet. Oferece-se para mostrar à amiga como funciona a Internet e algumas das suas utilizações possíveis. Sentam-se ao computador e Maria observa enquanto a Rita cheia de perícia navega na Internet.

Nesta situação um dos elementos, dado a diferença de conhecimentos, limita-se a observar. Mas esta observação é no sentido de tentar compreender, de reflectir sobre o pensamento e a acção do outro, de tentar ajustar a sua forma de ver, de organizar e de compreender a situação. Assim, embora o comportamento não evidencie uma participação activa na acção, está activamente empenhado num processo de construção de uma significação partilhada, cooperando na elaboração conjunta do trabalho.

Pensemos agora em situações de cooperação de cooperação à distância (telefone, fax, carta, etc,) que tem sido bastante facilitada pelo uso do computador. É possível haver uma intensa actividade cooperativa entre parceiros na definição e execução de tarefas através da troca de mensagens entre os interlocutores via computador, mas também através de programas construídos para a orientação de um processo de aprendizagem. A construção destes programas informáticos, assim como a elaboração de manuais de ensino, exigem uma previsão e antecipação do processo de aprendizagem, a fim de poder orientá-lo. A selecção dos conteúdos, a forma de os expor e a elaboração de técnicas de ensino têm de obedecer a uma certa antecipação de processos e mecanismos necessários à construção de significações e saberes partilhados, têm de ter uma orientação cooperativa, senão não serão adequados. Aparecem assim, exemplos do quotidiano enquadrados teoricamente, questões e alternativas de resposta que permitem ao estudante verificar as suas predições, seleccionar as respostas plausíveis e reestruturar as suas concepções espontâneas em conceitos científicos.

Em síntese, é absolutamente necessário haver comunicação para haver cooperação e entre-ajuda entre as pessoas, embora estas possam estar distantes no espaço e até no tempo, mas também é necessário repensar o papel do adulto em casa e na escola, para haver cooperação na aprendizagem. A promoção da aprendizagem cooperativa assenta numa reflexão sobre o próprio conceito de cooperação, a estruturação das situações de aprendizagem, os comportamentos de suporte e de ajuda, as estratégias de orientação da aprendizagem, etc.

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