A importância dos tempos livres

 

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 Introdução

 A desocupação a que a maior parte das crianças e jovens está sujeita, é hoje, em dia, factor de preocupação para a maior parte dos pais. Com efeito, o tempo não ocupado dos jovens pode ser motivo para uma ociosidade gratuita ou empregue em procuras de prazer imediato, cujas consequências podem ou não trazer um mínimo de enriquecimento pessoal ou serem mesmo nefastas para um jovem, em pleno amadurecimento e maturação.

Tempo livre, o que é?

Tempo livre – lazer, no velho mundo designado por “otium”, era o privilégio e o atributo do homem livre. Ser livre significava que toda a actividade ou ocupação era fruto da própria escolha e vontade. Com efeito, o homem livre não era obrigado a trabalhar para garantir o seu sustento; pelo contrário, os que para sobreviver tinham que garantir a actividade de negociante, não dispunham de qualquer tempo de lazer.

Com a ascensão da classe burguesa, o trabalho foi considerado como um valor e o pouco espaço de tempo livre existente, orientado para a recriação, no sentido em que era necessário revigorar o corpo e o espírito e recuperar as energias necessárias para o regresso ao trabalho.

images[9] O tempo livre é, pois, o tempo liberto de estudos formais (decorrentes do trabalho que a escola exige, no seu interior ou fora dela) ou de trabalho remunerado, em que o indivíduo pode ocupar-se em actividades, cuja natureza depende da sua própria escolha.

O tempo de “se ter tempo para não fazer nada” permite uma actividade apelativa e de acordo com os interesses pessoais que, habitualmente, não se incluem na rotina quotidiana. É, também, um tempo livre de qualquer pressão externa e de qualquer supervisão. Por fim, é um tempo, através do qual é possível ao ser humano, percepcionar-se como parte indivisível e única e situar-se perante os seus próprios objectivos de vida.

Os medos dos pais

 O facto dos tempos livres serem um espaço de vivência longe do controle e da supervisão dos pais, pode provocar nestes, receios e ansiedades perante as quais os pais se confrontam, habitualmente com duas alternativas:

  • Organizar e supervisionar os tempos livres dos filhos, impondo regras e normas muito precisas;
  • Ter coragem para deixar que os filhos controlem as actividades dos seus tempos livres com autonomia e responsabilidade.

O número de decisões que hoje em dia se têm que tomar, não deixa aos pais outra alternativa, senão apoiar e dar instrumentos cognitivos e emocionais que permitam que os filhos aprendam a tomar decisões, a saber o seu significado e a avaliar as suas consequências.

O tempo não se perde, o que se perde é o tempo daquele que perde tempo na vida.

Gonzalez-Pecocho. 1953

Alguns riscos a ter em conta

Na actualidade, o tempo livre é, muitas vezes, sinónimo de diversões e passatempos consumíveis como de mercadorias se tratasse. O tempo livre transforma-se, desta forma, numa necessidade para a manutenção e o funcionamento da sociedade de consumo, já que esse tempo se destina ao consumo generalizado.

No tempo livre, os indivíduos, independentemente da idade, procuram, em muitos casos, a diversão, através de um mundo imaginário que permita escapar a uma realidade, sentida como medíocre.

Um outro aspecto importante é o carácter de ociosidade gratuita de que os tempos livres se podem revestir, numa sociedade onde os jovens tendem, dadas as circunstâncias, a estar “isolados”, muitas vezes entregues a si próprios ou a uma televisão que falsamente lhes faz companhia.

 Funções e benefícios dos tempos livres

Mas…nem tudo é trabalho e ocupação obrigatória. Os nossos filhos têm direito a divertirem-se, a terem tempo para se entregarem a actividades, cujo fim primordial seja o deleite e o puro prazer que se retira de uma actividade que se gosta.

Para além dos riscos já mencionados, é importante avaliar os tempos de lazer como um espaço temporal privilegiado para as actividades de recriação, desporto, cultura e socialização, que podem corresponder e dar resposta a um número ilimitado de necessidades do jovem, designadamente às que respeitam quer o processo de maturação e realização pessoal, quer o aprofundamento e consciencialização dos sentimentos.

Com efeito, os tempos livres ou de lazer têm funções muito importantes, uma vez que são uma oportunidade e condição, a par da família e da escola, para a formação dos jovens, para o divertimento e para o seu descanso e reflexão.

É possível, através de opções de actividades que vão ao encontro dos interesses e motivações individuais, desenvolver novos interesses (culturais, desportivos, sociais) e competências, aumentar e actualizar conhecimentos, estabilizar e fortalecer aprendizagens adquiridas em contextos formais.

As oportunidades para descontrair, mudar de actividade, encontrar-se consigo próprio, e descansar são outras das vantagens que os tempos livres podem oferecer e que contribuem, de forma determinante, para o equilíbrio emocional pessoal.

 Que papel cabe aos pais?

Os momentos de lazer são tempos importantes para reforçar o vínculo afectivo que regula a relação entre pais e filhos. São ocasiões preciosas que devem ser valorizadas, para que ambos experimentem o companheirismo; são espaços que permitem uma relação menos hierarquizada em que pais e filhos procuram, em conjunto, o prazer e o gozo que a actividade lúdica confere, em que as normas são exteriores às partes interessadas ou definidas e acordadas por elas.

Os programas devem contudo ser organizados em conjunto ou pelos próprios filhos, de forma a terem em conta os seus interesses e autonomia e a necessidade de diversificar as actividades. Sempre que sejam os jovens a organizar as suas actividades o diálogo deverá ser orientado para o levantamento das necessidades e para os ganhos e perdas que certas actividades podem trazer.

É importante que cada um dos filhos tenha uma participação activa nas tarefas domésticas e que seja responsabilizado por determinadas actividades em casa. A educação para a autonomia, para a democraticidade, para o respeito pelos outros, começa em casa e desde muito cedo.

Deverá haver tempo para projectos pessoais e projectos comuns e, estes, deverão corresponder a interesses, também, comuns.

A negociação de regras é indispensável, designadamente no que respeita por exemplo às horas de deitar e levantar, às necessidades de explorar a vida ao ar livre de fazer desporto (actividade física, passeios, campos de trabalho e de férias, campismo, de organizar convívios com familiares e amigos dos pais, de orientar os interesses para valores culturais (música, cinema, teatro, museus, exposições de arte, leituras, etc.) e sociais (actividades de solidariedade, participação em associações de fins humanitários, etc.).

Na nossa rotina diária, na agitação que caracteriza, actualmente, a vida do ser humano, principalmente, nas grandes cidades, é pouco vulgar pararmos para fazer o balanço das nossas práticas e avaliarmos as nossas necessidades e o percurso da nossa vida em função dos nossos valores e crenças.

E no entanto, deveríamos fazê-lo, obrigatoriamente, porque a vida do ser humano, corre riscos de desequilíbrio se na ausência de paragens e de tempos de lazer frequentes.

Manuela Machado

Enciclopédia Educar Hoje, Enciclopédia dos Pais, 2000. Lisboa. Lexicultural

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One thought on “A importância dos tempos livres

  1. emiele

    Como em tudo o resto o equilíbrio e bom-senso são chaves mestras.
    O tempo-livre tem de ser livre 😀 Quando é demasiado organizado é «outra coisa» não é tempo livre.
    Mas…
    …tem e deve haver controlo.

    Responder

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